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A crise chegou ao Circo

A crise chegou ao Circo

Quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Saída da honda abre discussão sobre o futuro das

demais montadoras da Fórmula 1. Cortar gastos virou palavra de ordem na categoria que menos se preocupa com dinheiro no automobilismo

Texto Rafael Durante Fotos Luca Bassani

Primeiro, os bancos de investimento.Depois, o setor de construção civil e, por fim, as montadoras de automóveis. A crise financeira iniciada com as hipotecas americanas – causadora de perdas bilionárias ao redor do mundo nos últimos três meses – chegou definitivamente à indústria automotiva e, também, à Fórmula 1. Nem mesmo a principal categoria do automobilismo mundial e sua costumeira opulência passaram ilesas ao delicado período que atravessa a economia do planeta – a ponto de o campeonato de 2009 já contabilizar sua primeira baixa antes mesmo da temporada começar.

O fechamento da equipe Honda, comunicado oficialmente no dia 05 de dezembro, pegou de surpresa a categoria mais rica do mundo, e fez acender a luz amarela entre os conglomerados industriais que se mantiveram no circo. Depois de ver suas vendas caírem 35% somente no mercado norte-americano, a montadora japonesa pisou no freio e deu adeus a seu até agora frustrado sonho de criar um time vencedor no principal torneio do planeta. Para desespero de seus cerca de mil funcionários, a Honda está oficialmente fora da Fórmula 1. E não tem data para voltar.

A montadora já tinha se aventurado pela categoria com equipe própria entre 1964 e 1968, e foi uma das potências do mundial como fabricante de motores entre 1983 e 1992. Fabricar propulsores seria, novamente, uma maneira menos dispendiosa de manter a ligação da companhia com o esporte a motor, mas nem mesmo essa hipótese foi cogitada nos agora silenciosos corredores do time de Brackley – apesar de controlada por japoneses, a sede da equipe Honda ficava na Inglaterra. Embora não esteja em situação financeira complicada – algo bem diferente, aliás, do que ocorre com General Motors, Ford e Crysler, as três gigantes do setor automobilístico norte-americano –, a Honda decidiu cortar custos e começou pelos projetos que geravam mais zeros e davam menos retorno.

A equipe chegou a ser a quarta colocada entre os construtores em 2006, mas vinha atravessando um período de resultados medíocres nos dois últimos anos – o que contrastava com sua reconhecida capacidade de fazer bons carros... de rua. Faltaram dólares, naturalmente. Mas faltaram, também, pódios e vitórias. E esse é mais um fato que lança incertezas sobre o futuro das grandes montadoras na Fórmula 1. Em tempos de crise global, até quando elas manterão seus projetos milionários na categoria, sem que estes se revertam em números satisfatórios de retorno de mídia ou de ganho de imagem?

A Honda foi a primeira das grandes montadoras a abandonar o barco, mas nada indica que seja a última. Rumores apontam para a saída da equipe Toyota em 2010 – embora a empresa tenha se apressado em desmentir qualquer boato sobre o assunto –, e há quem diga que novas baixas possam ocorrer na Fórmula 1 antes mesmo da temporada de 2009 começar.

Por enquanto, esse cenário parece apenas fantasioso, já que temendo uma possível inclusão de seus nomes na lista das “sem recursos” do circo, a maior parte das equipes se apressou em distribuir comunicados em tom de “estamos bem, vamos ficar”. E a razão principal apresentada por todas elas foi a ótima relação custo-benefício que a Fórmula 1 oferece – naturalmente, para quem tem bons resultados para comemorar.

O orçamento da Honda era de cerca de 400 milhões de dólares – pouco investimento se comparado ao faturamento mundial da companhia, que em 2007 foi recorde e beirou os 100 bilhões de dólares. Mas, em tempos de crise, ganha ainda mais força a teoria dos valores relativos. Um milhão investido de maneira correta pode “custar” menos de um dólar a uma companhia. Já um dólar investido de forma errada pode gerar a esse grupo uma “despesa” de mais de um milhão.

Os engenheiros da Honda erraram a mão nos dois últimos projetos, e a equipe pode ser considerada o fiasco dos anos de 2007 e 2008. Diante desse cenário, a Fórmula 1 não representa somente um alto custo, mas também, um pequeno benefício. Pagar uma conta de quase meio bilhão de dólares por ano apenas para completar o grid é algo que executivo nenhum, seja ele japonês, inglês ou brasileiro, costuma aceitar por muito tempo.

Na tentativa de manter atraente essa relação entre o que sai de dinheiro e o que entra de retorno na contabilidade das escuderias, as principais forças da Fórmula 1 anunciaram a intenção de reduzir custos já em 2009, e os números desejados chegam a espantosos 50% – de acordo com a proposta levada à Associação de Equipes da Fórmula 1 (Fota) pela Mercedes, sócia da McLaren.

Até mesmo a Red Bull, que não fabrica carros e normalmente investe pesado nos eventos esportivos dos quais participa, anunciou que pretende cortar gastos no ano que vem. E a cifra poupada pode chegar a 30% do orçamento da Fórmula 1, o que representa algo em torno de 100 milhões de dólares.

O cenário tenebroso que marca este fim de ano na categoria máxima representou, no entanto, o palco ideal para a retomada de um antigo projeto do presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), o inglês Max Mosley. Defensor da redução de custos na categoria até mesmo nos tempos de vacas gordas, Mosley reiterou seu desejo em diminuir os gastos com o desenvolvimento de motores através do uso de um propulsor único, fabricado pela Cosworth – antiga parceira da Ford.

A medida tem causado desconforto nos times de ponta, principalmente na Ferrari, que hoje vende seus motores para outras duas equipes, e ameaçou sair do mundial caso a novidade seja mesmo imposta pela federação. Mas, verdade seja dita, a idéia não parece tão estranha quando olhada mais de perto. Em sua proposta, Mosley terá a Cosworth como fornecedora-padrão de propulsores para a categoria, mas não eliminará a possibilidade de qualquer outra escuderia ou montadora assinar seus próprios projetos. Desde que, porém, eles tenham exatamente as mesmas especificações do motor indicado pela FIA.

Dessa maneira, o investimento anual das escuderias com esse item do carro ficaria na casa dos 8 milhões de dólares. A quantia pode parecer alta, mas representa 20% do total gasto com o desenvolvimento de motores no auge da corrida por cavalos extras. Na Era da “categoria das montadoras”, em que a paixão de românticos como Frank Williams e Eddie Jordan pelo esporte deu lugar à razão das planilhas de custo-benefício dos executivos, encantar com números pode ser a única saída para a sobrevivência. Em tempos de crise, cada milhão economizado pode ser decisivo na opção por continuar, ou abandonar, um projeto na Fórmula 1. n